segunda-feira, maio 29, 2006

O metrô

Atualmente, faço parte da multidao que usa o metrô de Madri. Somos muitos, muitíssimos, os que passamos horas de nossas vidas nos subterrâneos desta grande cidade. É uma vida de tatu. Só de vez em quando assomamos a cabeça ao ar livre. É uma multidao completamente intercultural. Já nao existe, ou nao se nota, o típico e característico madrilenho.
As pessoas vao e voltam nestes vagoes que serpenteiam a metrópole, com distintas miradas e posturas: ausentes, cansadas, observadoras, meditativas, simpáticas, invasivas, serenas...cada viagem é uma viagem. Eu me pergunto o que estará acontecendo na privacidade de cada uma das vidas que me acompanha. Às vezes, fico atribuindo/criando histórias para cada um.
Ao ar livre, esta Madrid intercultural, de grandes monumentos e largas avenidas, é muito mais bonita.

Feira do Livro


A Feira do Livro conta com a presença de Saramago, Vargas Llosa, Rivas, Pérez-Reverte, Gala, Molina...os caras ficam ali, dentro das barraquinhas, esperando que as pessoas peçam um autógrafo. Tudo tranquilo, sem filas e sem agonia. Eles sao normais, tocáveis, palpáveis e simpáticos. Bom.
A estimativa de venda de livros é de 10 milhoes de euros. Bom, também. O ruim é o calor. Ontem, 35 graus. Abrasivo. Queria estar com o Sean, a 4 graus.

sexta-feira, maio 26, 2006

O tempo

Ultimamente, tenho recibido diferentes mensagens que dizem que cada coisa tem o seu tempo. Nao tenho dúvidas!
Passeando por uma livraria esta semana, um livro se atirou na minha frente. Coincidência? Nao, sincronicidade. Falava sobre o tempo. Tô lendo e nao podia ter chegado em melhor hora.

Hoje, abre a 65ª Feira do Livro de Madrid.

terça-feira, maio 23, 2006

A Alemanha da Copa

A Alemanha está em evidência por esta banda da terra. Como a Copa do Mundo vai acontecer neste país, diariamente os jornais dissertam sobre as idiossincracias do povo alemao. Ontem, fiquei surpresa com o que li. Numa longa matéria sobre as mudanças que a Alemanha está promovendo para a Copa, li que os alemaes finalmente deixavam sua humildade de lado para aderir à confianza, ao otimismo e a à alegria. Fiquei um pouco perplexa. Humildade? Nunca tive esta percepçao dos alemaes. Continuei lendo a matéria. Como nao conseguia sintonizar com o texto, resolvi perguntar a opiniao dos espanhóis que estavam ao meu redor, sobre o povo em questao. Ouvi palavras duras. Quando terminei de ler, estava claríssimo que o autor da matéria era um grande simpatizante da Alemanha e que nao escrevia sobre a realidade que vive este país. Eu, sinceramente, nao tenho absolutamente nada contra a Alemanha. Simplesmente, nao sentia as verdades do texto.

Na minha opiniao, a Alemanha está numa situaçao muito difícil com a chegada da Copa. É lógico que este país vai receber um forte impulso econômico com este momento esportivo mundial, mas, ao mesmo tempo, terá que solucionar situaçoes bastante difíceis - se nao quer ter surpresas desagradáveis.

Penso que o maior problema que a Alemanha terá que enfrentar é o problema da segurança - a dos comuns mortais e a das autoridades que assistirao aos jogos. A assistência será das mais variadas, como em outras Copas. Acontece que existe um grande enfrentamento, agora. O mundo muçulmano continua em pé de guerra com o ocidente. As ameaças sao impressionantes. Eu mesma nao entraria num estádio nem que me pagassem.

O segundo problema da Alemanha é o racismo, esta praga que nao desaparece do mundo contemporâneo e que é especialmente forte e significativa neste país. As associaçoes africanas de Berlim já estao distribuindo uma lista de lugares pouco recomendáveis para os negros. Acontece que os negros nao provêem só da África e que uma grande parte da assistência à Copa será desta cor. Sabemos que os skin-heads representam um real perigo para negros, homossexuais e idosos. Mas nao só os skin-heads - que sao muitos mais do que imaginamos. Uma boa parcela da populaçao é extremamente racista. Este é um problema muito sério. E é aqui que eu sinto que a tal humildade está mais na cabeça do autor da matéria do que na prática. É possível que o tempo tenha diminuido a culpabilidade histórica deste povo, o que é normal, mas daí a falar em humildade há uma grande diferença - é evidente que em nenhuma situaçao se pode generalizar, nem para o bem e nem para o mal. O fato é que o racismo dos alemaes existe e é conhecido mundialmente.

Um terceiro tema complicado, que já está ocorrendo, é a entrada das prostitutas no país. Mais de 40 mil prostitutas deverao entrar na Alemanha até o início da Copa. É o que prevêm os organizadores do mega-evento. O pior é que todos sabem que muitas delas entrarao à força e enganadas, como sempre. Isso, teoricamente, deveria ser terrível para um país desenvolvido como a Alemanha. Mas causa espanto a forma como tratam esta situaçao. Dizem os organizadores que, como o futebol é um esporte predominantemente masculino, ao lado de cada estádio olímpico haverá um grande bordel. Impressionante!

Um quarto problema que deve preocupar muito as altas esferas do governo é a possível discussao sobre os direitos de Israel, tema bastante sensível para o país anfitriao e que está em voga em todo o mundo.

Enfim, o êxito desta grande festa esportiva depende de muitas variáveis. Espero que todos que acudam à Alemanha para assistir aos jogos, nao durmam no ponto. Diversao e cuidado nao sao incompatíveis. O momento histórico nao está para brincadeiras.

sexta-feira, maio 19, 2006

A tortilla

A tortilla é um dos prato mais tipicamente espanhol. Ontem, Virginia (espanhola) ensinava ao Hique (brasileiro) a fazer tortilla. Os dois conversavam sem parar na cozinha, e eu os ouvia do terraço. Transcrevo um momento da conversa:
(Hique) - " e como é que eu sei que as batatas já estao fritas?"
(Virginia ) - "quando elas parecem fritas".
Tive que rir.
O resultado final foi super saboroso.

Barracas parisienses

Os imigrantes e vagabundos de Paris estao recebendo barracas para viver pelos parques e pontes da cidade. A organizaçao Médidos do Mundo é a responsável pela entrega destes lares. O número crescente de pessoas que perambulam pelas ruas da Cidade Luz, vindos do Leste da Europa, da África e da América do Sul, preocupa a todos os parisenses. Alguns, mais caritativos, junto com Médicos do Mundo, tentam se organizar para alimentar esta massa humana que vai chegando, devagarinho. Os mais nacionalistas querem expulsar logo este contingente de pessoas e de barracas. Sao os que nao querem saber por que motivos tanta gente vai chegando. Estes, só se importam com a aparência de Paris - com sua beleza e riqueza.

Como eu já comentei em outros posts, é perfeitamente perceptível o aumento significativo no número de imigrantes que chega a Europa em busca de melhores oportunidades. E, na minha opiniao, é mais do que natural. Se seus países foram roubados e saqueados em outras épocas históricas, o que - direta ou indiretamente - levou à atual situaçao, é natural que a concentraçao de riquezas existente neste continente atraia aos mais necessitados. E este movimento nao vai parar de crescer. Só ontem, em Canárias, chegaram mais de mil pessoas em barquinhos que atravessam o oceano, vindos da África. É uma situaçao que exige cuidados especiais e imediatos. Os governos europeus passam por um momento de crise com tal quantidade de gente necessitada que chega diariamente. Pode parecer utopia ou bobagem, mas eu acredito que nao existe outra saída que nao seja a de oferecer novas e reais oportunidades aos que estao necessitando - tantos aos que chegam como aos que ficam em seus países. Por bem. Por que, se nao fôr assim, a situaçao pode ficar muito complicada.

O Andy Warhol do cinema

Pedro Almodóvar vai receber o prêmio Príncipe de Astúrias das Artes. Reconhecimento merecido para este cineasta que mudou o cinema espanhol. Ele, com sua criatividade e originalidade, utiliza personagens marginais - ou marginalizados - e os transforma em heróis ou vítimas do mundo em que vivemos, numa linguagem cênica que, muitas vezes, dispensa palavras.

Há um ano, aproximadamente, o jornal El País, de Madrid, lançou os DVDs de seus filmes. Eram vendidos aos domingos, junto com o jornal impresso. Deste modo, pude comprar a coleçao e ver alguns filmes dele que nunca foram lançados no Brasil. Nao há dúvidas que ele é, no mínimo, inovador. Seus filmes se caracterizam pela ausencia de juízos morais e pela ausencia de preconceitos. O mais surpreendente é a aceitaçao generalizada das idéias que ele traz para a grande tela. Seus temas polêmicos, claro, atingem às instituiçoes poderosas. A Igreja é uma delas. O setor eclesiástico nao cansa de manifestar o malestar provocado por seus filmes, especialmente aqui na Espanha. Mas, em geral, a populaçao aceita muito bem sua mensagem/visao artística.

Ontem, numa entrevista ao EL País, ele disse: "como autor, dotei os meus personagens de uma absoluta independencia moral. Todos, sem importar classe social, foram livres para lutar contra os problemas que deviam afrontar. Foram livres para sofrer, para amar e para correr o risco de transitar pela zona mais obscura de si mesmo. Mostrei todos eles - psicopatas, atrizes, donas de casas, toureiros, escritores, diretores de cine, polícias apaixonados e corruptos - como seres humanos, sem julgar seus atos..." Sem dúvidas, ele é um homem de grande talento e merece este reconhecimento - que é maior no exterior.

Percebo que cada povo tem uma forma diferente de fazer cinema. O cinema brasileiro, por exemplo, tem umas características inconfundíveis, próprias, que sao maravilhosas. Neste sentido, aprecio muito - também - os filmes espanhóis. Nunca esqueço de alguns filmes que vi na minha adolescência e que me impactaram muito, como os de Bigas Luna, de Carlos Saura, de Buñuel...eles sao todos muito loucos! Na vida cotidiana, parece que os espanhóis sao mais certinhos, mais ajustadinhos, mais organizados, etc...mas, na grande tela, aparece nitidamente a irreverência, a criatividade e o talento deste povo.

quarta-feira, maio 17, 2006

Fotos de Madri







Livros


Vi no blog Sabatika e trouxe para cá.

segunda-feira, maio 15, 2006

Laços e redes

Em cada lugar que vivemos, tecemos nossos laços e ampliamos a rede de amigos e conhecidos. Ao chegar num lugar novo, o desconhecido pode provocar receio e medo. Mas, devagarinho, vamos estabelecendo relaçoes com as mais diferentes pessoas: as da padaria, as do supermercado, os vizinhos, os companheiros de trabalho...depois de um tempo, a rede vai tomando forma e crescendo. Começar a sentir familiaridade com a nova cidade e seus habitantes produz a acomodaçao dos sentimentos que, inicialmente, estao em alvoroço.

Eu vivi em várias cidades do Brasil antes de viver em Bilbao. E sempre aprendi muito com as mudanças. Cada cidade, novos aprendizados. Aprender e conhecer é maravilhoso! A identificaçao com determinados aspectos que nos sao significativos, nas diferentes cidades, vale muito a pena. É o que dá energia e gás para seguir nos caminhos e movimentos.

Mas as partidas/despedidas se fazem acompanhar da certeza que estamos deixando pessoas e lugares importantes da nossa história. Algumas destas pessoas, permanecem; outras, passam. É assim, inevitavelmente.

Em Bilbao, conheci pessoas fantásticas, que me ajudaram e que contribuíram - de alguma forma - para o meu aprendizado de vida. Com estas pessoas, aprendi a conhecer e a amar a cultura espanhola e, também, a interculturalidade que se vive aqui - entre outras coisas. Mas esta etapa também acabou. E é destas pessoas - as que me acompanharam e me deram força - que eu me despeço agora, nestas linhas. Com carinho, saudade e reconhecimento.

A todo(a)s que marcaram minha existência bilbaína com suas cores pecualiares, um abraço agradecido. Vocês bordaram matizes incomuns em minha história. Só posso agradecer muito!

Agora, atraco meu barquinho no porto de Madri - que nao existe, porque esta cidade está localizada no centro da Espanha. Será uma fantasia minha? Vamos ver nos próximos posts.

quinta-feira, maio 11, 2006

National Geographic

A revista National Geographic, publicada nos 5 continentes e lida por mais de 300 milhoes de pessoas, ganhou o prêmio Príncipe de Asturias deste ano. O jurado ressaltou sua contribuiçao na exploraçao e na investigaçao de distintos aspectos da Terra, destacando sua sensibilidade cultural e a consciência ecológica.

Esta é uma revista que difunde os avanços científicos sobre o legado histórico, geográfico e artístico da humanidade e, desde a sua fundaçao, já financiou mais de 8 mil projetos. Adelante!

Indignaçao masculina

Os homens da Espanha estao em pé de guerra com a vicepresidenta. Isso porque ontem ela realizou um jantar para recepcionar a presidenta do Chile, Michelle Bachelet, e só convidou mulheres - políticas, empresárias, artistas e donas de casa.

Nao se trata de um vingativo clube da Luluzinha - elas explicaram -, mas de uma celebraçao autêntica entre mulheres que conseguiram ultrapassar as barreiras impostas pelo mundo masculino.

Hoje, eles nao páram de chiar. Todos os jornais publicam seus protestos. Elas, serenamente, fazem pouco caso do alarde masculino. Como tem que ser. Eles nunca deixaram de se reunir e de excluir as mulheres, achando que isso é um direito adquirido. Agora, querem ganhar no grito. História antiga!

Uma das coisas que me chamou à atençao em uma reportagem publicada no EL PAÍS de hoje é que as participantes do jantar perguntaram a Michelle Bachelet se ela tomava decisoes com o coraçao ou com a cabeça. Ela respondeu: "quando minha cabeça nao faz caso do meu coraçao, me equivoco. Nao tenho vergonha de unir o afeto à razao." Sábia e inteligente!

Leis sociais

Já disse aqui, muitas vezes, que aprecio a política social do presidente Zapatero e de sua vice, Maria Teresa Fernández de la Vega. Eles fizeram várias leis que realmente promovem a integraçao de distintos coletivos da sociedade, como os estrangeiros, os homossexuais, as mulheres no trabalho...

A última deles é a lei que regulará o processo de mudança de nome e de sexo dos transexuais nos documentos oficiais, mesmo que estes nao tenham feito uma operaçao de mudança de sexo. Bastará uma prova de vida: que se mostre um diagnóstico de transexualidade y que se viva de acordo com o sexo escolhido.

Este coletivo terá seus direitos reconhecidos por todos. Maravilhoso! Fim de humilhaçoes e de desemprego para muitos que nao estao em paz com o corpo que nasceram.

A sensibilidade e a velocidade deste governo com questoes tao sérias e reais me surpreende e me faz acreditar que ainda existem políticas eficazes e voltadas realmente para os interesses do povo.

Maltratos da Telefônica

Sou uma participante digital ativa e a Telefônica me maltrata duramente nos últimos dias. Quero a minha linha de telefone e quero ter acesso à Internet! Simples. Prático. Necessário. Me dizem para ter paciência, mas já perdi esta senhora de vista. Estou numa loja, escrevendo e sentindo falta de meu teclado e de meu computador. Tá bem! Sem reclamar...

terça-feira, maio 02, 2006

Madri

Mudei para Madri. Estou acomodando as caixas de livros e de roupas dentro do novo apartamento, que é um ovo. Até este momento, sobram 6 caixas grandes e 3 maletas. Nao sei o que fazer com elas.
Ainda nao instalaram Internet e estarei desconectada por mais uns dias. Neste momento, estou sentada em uma loja de Internet, perto da Plaza Santa Ana - metrô Sevilla. Percorro novos caminhos, novas ruas, novas praças...novas esperanças!

domingo, abril 23, 2006

Volta preguiçosa

Voltei de viagem. Deveria ter muitas coisas para contar...mas meus dedos nao se movem e minha mente está em estado de letargia. Amanha, quizá...

segunda-feira, abril 17, 2006

Beckham e o colar

A TV nao pára de contar que Beckham comprou um colar da firma Bulgari, de 11 milhoes de euros, para sua mulher, Victoria. Ela, por sua vez, nao pára de contar que nunca leu um livro em sua vida, porque nao teve tempo. E eu, impressionada, nao páro de tentar imaginar a quantidade de dinheiro - em reais - da cifra estratosférica citada...mas nao consigo! Meus neurônios nao alcançam esta matemática. Só consigo fazer cálculos como o salário dos professores, os anos que eles estudam, a quantidade de livros que lêem, o ínfimo salário que sustenta milhoes de famílias - sem contar a miserabilidade e a fome que existe no mundo. Enfim, a realidade que eu vivo nao me permite alcançar o sentido de atos assim.

Viagem

Para os meus leitores amigos, aviso que estarei uns dias desconectada, por motivo de viagem. Sentirei saudade de estar neste espaço, lendo os textos de vcs e escrevendo os meus. Até breve!

Preconceito lingüístico

Um dos meus ídolos brasileiros chama-se Marcos Bagno, um jovem professor de Lingüística da UnB, que estudou na UFPE e que fez doutorado na USP. Ele fala no preconceito lingüístico de uma forma instigante, que abre nossos olhos para a forma como ocorre discriminaçao e exclusao das pessoas que nao falam/escrevem corretamente - dentro da perspectiva da língua dita culta. Palavras suas: “O preconceito lingüístico está ligado, em boa medida, à confusao que foi criada, no curso da história, entre língua e gramática normativa. Nossa tarefa mais urgente é desfazer esta confusao. Uma receita de bolo nao é um bolo, o molde de um vestido nao é um vestido, um mapa- múndi nao é o mundo...também a gramática nao é a língua.” (Preconceito Lingüístico, Sao Paulo: Loyola, p.9, 2001)

Ele compara a língua a um enorme iceberg; e a gramática, à parcela visível deste iceberg. Neste sentido, ele afirma que, na gramática, a visao da língua é parcial e que ela nao pode ser aplicada autoritariamente à língua, que é muito mais ampla e profunda que as normas criadas.

Bagno explica que o brasileiro tem dificuldades em utilizar as regras do português padrao porque, entre outros motivos, o português padrão está muito distante da realidade lingüística dos brasileiros. E é verdade. É como se fossem duas línguas distintas. Para ele, a missão da escola é levar os alunos a se apoderar das formas prestigiadas de falar e de escrever, mas sem discriminar a fala original, sem fazer qualquer tipo de atitude preconceituosa com a variedade lingüística que o aluno traz para a escola. Trata-se de aumentar a bagagem cultural dele, aumentar o seu repertório lingüístico, e não de substituir uma forma considerada errada por uma forma supostamente certa. Este autor insiste em que todas as formas de falar são igualmente válidas e a função da escola é apresentar para o aluno aquilo que ele ainda não sabe.

É interessante ver como ele critica as propostas de pessoas como o Prof. Pasquale, que utilizam os meios de comunicaçao para defender o uso correto do português. Correto do ponto de vista de quem? Segundo ele, essas pessoas não estão integradas ao estudo efetivo, ao estudo científico da realidade lingüística no Brasil e suas variaçoes. Elas tentam transmitir uma língua padronizada extremamente formalizada e muito antiquada, até defendendo regras que os próprios gramáticos profissionais reconhecem que estão obsoletas. Em uma entrevista dada ao site da UFMG (http://paginas.terra.com.br/educacao/marcosbagno), Marcos Bagno refere-se a estas pessoas como “os atuais pregadores da tradição gramatical que infestam o quotidiano dos brasileiros com suas quinquilharias multimidiáticas sobre o que é certo e errado na língua."

Sem dúvidas, através de suas palavras entendemos a importância de reconhecer as variaçoes da língua portuguesa brasileira (expressao sua). Claro que isso nao minimiza a importância da língua padrao, mas faz com que os professores e estudiosos procurem entender a sociolingüística e, principalmente, o direito que as pessoas têm de falar do jeito que falam e de usar as variedades locais, regionais e sociais, sem serem discriminadas por isso.

Segundo Bagno, um exemplo de preconceito lingüístico é o da Rede Globo em relaçao aos nordestinos. Em qualquer novela, o personagem nordestino está representado por um tipo grotesco, esquisito, raro, atrasado, ridículo, normalmente pobre, que só provoca riso e deboche dos outros. No plano lingüístico, os atores nao-nordestinos fazem uma imitaçao imperdoável, que nao tem nada a ver com a realidade da língua falada naquela regiao. Esta atitude é uma forma de marginalizaçao e de exclusao. A idéia que a Rede Globo passa é que o nodeste é atrasado, pobre e subdesenvolvido e que as pessoas que vivem lá também sao atrasadas e, portanto, nao devem ser levadas em consideraçao.

É imprescindível que nos conscientizemos de que a língua é dinâmica e que está em constante processo de mudança e de evoluçao. Além disso, é preciso entender que existem diferenças de uso e que existem muitas alternativas em relaçao à regra única proposta pela gramática normativa. Respeitar a forma de falar/escrever das pessoas é igual a respeitá-las como seres humanos.

Acho que já tá claro que eu adoro ler textos e estudos que se referem à Lingüística, à Sociolingüística, à Psicolingüística....!!!! E o Prof. Marcos Bagno é uma leitura fácil e interessante. Penso que ele é uma espécie de Paulo Freire da Lingüística. Dá gosto ler suas reflexoes.

domingo, abril 16, 2006

O integrismo católico


Domingo de Páscoa e o Papa na TV. Fico olhando atentamente a figura deste senhor. Penso em seus atos recentes. Ele, devagarinho, vai empurrando o pêndulo histórico-religioso para a extrema direita.

Os jornais noticiam uma discreta perseguiçao aos seguidores da Teologia da Libertaçao. Para o Papa, estes chegaram longe demais em sua aproximaçao marxista. Religiosos franciscanos, dominicanos e jesuítas - ala que foi considerada mais progressista ou vanguardista da Igreja - que trabalham e tentam organizar as comunidades mais pobres, em países subdesenvolvidos, estao sendo substituídos pelos fiéis seguidores da política de Ratzinger. Época dura para os progressitas! Os pobres já nao interessam à Igreja Católica. Eles nao têm poder. Agora, a Igreja Católica se volta para as elites da sociedade, através de movimentos como o Opus Dei e Legionários de Cristo, que representam o integrismo católico e que ganham terreno rapidamente no ocidente religioso. Esta aproximaçao começou no reinado de Joao Paulo II e vai-se acentuando nitidamente no reinado de Ratzinger. Os novos exércitos do Papa circulam nas esferas mais altas da sociedade e é justamente aí que está o perigo. Os ricos, sim, têm o poder.

Infelizmente, a Espanha é um dos países que melhor acolhe estes dois movimentos, depois da Itália. Através de bons colégios e de faculdades, os adeptos do Opus Dei e dos Legionários de Cristo penetram e atuam na sociedade de forma inequívoca. Cada dia se tem mais notícias destes movimentos e das personalidades que participam ativamente neles. Aqui, eles ocupam cargos importantíssimos na direita conservadora e pensam em recristianizar o mundo, dentro de sua visao totalitária. Como dizem os espanhóis, ¡Joder! Até onde eles conseguirao avançar? Até onde irá o integrismo católico?

Vale a pena ler o blog do meu amigo Sean, que escreveu hoje sobre a nova provocaçao do acidente à civilizaçao muçulmana. E a provocaçao partiu de uma revista chamada Studi Cattolici (do movimento Opus Dei). É triiiiiiiste! Nao querem deixar os muçulmanos em paz. Cutucam de todos os lados, para, depois, pousarem de pobres vítimas dos barbudos. Os fanáticos sao eles.

Um alemao famoso já provocou milhoes de mortes de judeus inocentes. É mais que desejável que o pontíficie alemao se esforce por promover a paz e a serenidade entre os povos e culturas. Isso é o desejável, mas nao sabemos o que vai acontecer - ou sabemos.

Penso que personalidades como Ratzinger, Bush, Sharon...nao conseguem ter uma visao holística das situaçoes que se apresentam. Eles defendem cegamente um lado, apenas. A minha esperança repousa no fato lógico de que eles passarao, um dia. E, como o mundo é dinâmico, o pêndulo histórico voltará a mover-se em sentido inverso.